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Obra de maestro renasce após longo caminho de catalogação
André Cardoso, regente da Orquestra Sinfônica da UFRJ, resgatou a obra de José Siqueira (Foto de Fernando Souza)

Obra de maestro renasce após longo caminho de catalogação

Fundador das Orquestras Sinfônicas Brasileira e do Rio de Janeiro, José Siqueira tem composições acessíveis digitalmente na Base Minerva

Renan Fernandes

José Siqueira foi fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira, da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, da Academia Brasileira de Música, criou e presidiu a Ordem dos Músicos do Brasil e foi catedrático de composição e regência no antigo Instituto de Nacional de Música, hoje Escola de Música da UFRJ. No exterior, regeu a orquestra da Rádio de Montreal, as sinfônicas de Florença, a Radyo-Symphonique (Paris), a do Porto e a de Lisboa. Nos Estados Unidos, dirigiu as sinfônicas Filadélfia, Rochester, Detroit, Julliard School of Music e de Nova York. O currículo, como se vê, é extenso, e seu acervo não fica atrás: 474 obras em um total de 28.562 páginas que podem ser consultadas para pesquisa na Base Minerva desde 2022.

José Siqueira (primeiro de pé à esquerda) entre alunos e o quarteto de cordas da Escola Nacional de Música (Acervo UFRJ)

Com a disponibilidade digital, o interesse pelo compositor aumentou. “Hoje, é um dos nossos acervos mais consultados”, revela Dolores Brandão, chefe da Biblioteca Alberto Nepomuceno e responsável pela catalogação de toda a extensa obra. Mas a história de seu renascimento vem de 2012, quando o violista e professor André Cardoso, hoje regente da Orquestra Sinfônica da UFRJ, viu uma oportunidade única passar na sua frente: por meio de um aluno de mestrado, soube que todo o acervo do maestro estava no porão de uma casa de veraneio da família em Mangaratiba.

Talento e perseguição política

Nascido em Conceição do Piancó, sertão da Paraíba em 1907, José de Lima Siqueira migrou para o Rio de Janeiro com 20 anos e estudou teoria musical, regência, composição e piano no Instituto Nacional de Música. Formado em 1933, retornou  quatro anos depois para assumir a vaga de professor no Instituto. O músico teve laureada trajetória nos palcos do Brasil e do mundo, mas um episódio trágico estava guardado para os anos sombrios da ditadura civil-militar, que o perseguiu por seu ativismo político-cultural. Em 1968, Siqueira foi um dos 44 professores da UFRJ cassados após a instituição do AI-5. O maestro faleceu em 1985.

Sabedor da importância do compositor, Cardoso ligou para a neta de Siqueira e propôs a transferência do acervo para a Biblioteca Alberto Nepomuceno, da Escola de Música (EM) da UFRJ. A família topou e duas Kombis repletas de caixas e papéis estacionaram na frente do prédio histórico da Rua do Passeio, no Centro do Rio. No entanto, o trabalho ainda estava longe de começar.

Foi apenas em 2018, que Cardoso, no cargo de presidente da Academia Brasileira de Música, pode propor à EM/ UFRJ um convênio para tratar o acervo, porque a biblioteca não tinha os equipamentos necessários. Na academia, as composições foram organizadas, catalogadas e digitalizadas por categorias e subcategorias. “Por exemplo, o que é para canto e piano, o que é para canto e instrumento, o que é para coro, o que é para coro e orquestra. Na parte instrumental, o que é para duo, trio, quarteto, quinteto, orquestra de cordas, orquestra sinfônica, orquestra sinfônica com solista, orquestra sinfônica com coro”, enumera Cardoso.

Inovação na biblioteca

A chegada do material mudou a rotina da bibliotecária-chefe Dolores Brandão, responsável pela catalogação de toda a extensa obra. “Quando comecei a catalogar o acervo do Siqueira, notei que o campo agrupava meio de execução e gênero. Pensei: isso tem que mudar”, lembra. Dolores entrou em contato com o Sistema de Bibliotecas da UFRJ propondo uma nova forma de catalogação, ainda em implantação no Brasil, com um campo exclusivo para o meio de execução. “O pesquisador pode consultar tudo que é para violino, piano, violoncelo, viola, todos os meios de recepção, canto, orquestra, coro, misto, tudo é recuperável. Essa forma de catalogação facilita a pesquisa porque vê a perspectiva do usuário e não do catalogador”, explica a bibliotecária, ressaltando a novidade: “O trabalho do Siqueira provocou tudo isso. É inovador dentro da universidade”.

Apesar do vasto material catalogado, a pesquisa ainda não está concluída. Há algumas lacunas que precisam ser preenchidas. “Existem obras que a gente sabe que foram compostas, executadas, mas que não estão no acervo”, conta o maestro André Cardoso. Agora é preciso buscar partituras com músicos que colaboraram com Siqueira e grupos com os quais ele trabalhou. Em 1965, por exemplo, na celebração dos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, uma banda portuguesa veio participar dos festejos. “A Banda da Guarda Nacional Republicana de Portugal, com quem Siqueira tinha muita relação e tocaram várias obras dele aqui. Esse material não está no acervo dele, está lá no acervo da Banda”, revela Cardoso.

O reconhecimento internacional alcançado por Siqueira aumenta o trabalho de catalogação. “Ele regeu concertos em vários países da Europa, na antiga União Soviética, teve obras publicadas na Alemanha. Então, é um espectro muito grande de fontes e de informações que nós temos que buscar”, disse o maestro consciente da longa missão que tem pela frente.

Um dos frutos desse extenso trabalho repercute na própria Orquestra Sinfônica da UFRJ, que já incluiu músicas de Siqueira em seu repertório, regida por Cardoso: “Nós temos uma enorme quantidade de grandes compositores que precisam ter suas obras no palco, sendo tocadas. Porque a música é diferente de outro tipo de linguagem artística, não existe enquanto papel. A música só existe quando ela sai do papel nas mãos de um instrumentista. Aí ela passa a existir, é uma arte que se desenvolve no tempo e no espaço”.

Um centenário e tanto

No dia 25 de setembro de 1924, 33 alunos do então Instituto Nacional de Música fizeram, sob a regência do professor Ernesto Ronchini, a primeira apresentação da sinfônica que é considerada a mais antiga da cidade do Rio de Janeiro. Na plateia do salão do Instituto, o então presidente da República Arthur Bernardes acompanhou o concerto que, entre outras obras, trazia composições de Leopoldo Miguez (1850-1902), violinista e regente que hoje dá nome ao salão.

No aniversário de 101 anos, em 25 de setembro de 2025, a Escola de Música encerrou as celebrações do centenário da Orquestra Sinfônica da UFRJ com a exposição “Orquestra Sinfônica da UFRJ, 100 anos: Uma trajetória de música e educação” e um concerto especial. Além de uma série de apresentações no Salão da Escola e na Sala Cecília Meireles, a efeméride foi marcada pelo lançamento do livro “Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro: 100 anos” (Editora UFRJ), escrito pelo maestro André Cardoso.

Na ocasião, alunos de escolas públicas participaram de visitas guiadas. Segundo o diretor da EM, Ronal Silveira, eles conheceram sobre a história da escola, da orquestra e  assistem a um concerto no final. “Essa criança chega uma e sai outra, com a expectativa de conhecer o poder transformador da música. Esse talvez seja o maior impacto que uma estrutura como a Orquestra Sinfônica da UFRJ causa: ela transforma vidas”, afirma Silveira.

O docente também destaca a diversidade do corpo social da Escola como exemplo do impacto transformador da música: “Cada vez mais, nosso público é formado por jovens de classes menos abastadas que tiveram contato com a música por projetos sociais e fazem disso uma profissão”.

O maestro Roberto Duarte, assistente de José Siqueira nos anos 1960 e regente titular de 1979 a 1995, ressalta o papel da sinfônica da UFRJ na formação de músicos que hoje integram diversas orquestras pelo país. “Aqui se produz muito músico. Estava em um concerto no interior do Rio Grande do Sul e tinha 12 ex-alunos meus. Isso acontece em vários lugares do país”, lembra orgulhoso.

A Orquestra é formada por 43 músicos profissionais concursados e um contingente de alunos dos cursos de bacharelado em instrumentos. No formato sinfônico, mais de cem instrumentistas compõem o grupo. “Temos músicos altamente gabaritados e um aluno do primeiro semestre, que acabou de passar no teste de habilidade específica, tocando lado a lado”, destaca Silveira sobre a importância da experiência na formação dos estudantes da Escola. “É um laboratório em que se pesquisa, por exemplo, repertório e novas formas de condução”.

José Siqueira – Elegia para violoncelo e orquestra de cordas (1934)

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