Paulo Rossi
No freezer do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, repousava uma proteína que chamou a atenção da professora Tatiana Sampaio. O nome interessante – “laminina”, que remete a “lâmina”, ferramenta básica da pesquisa científica – e a estrutura de trímero, com três moléculas associadas, menos usual no mundo das proteínas, atraíram o interesse de Tatiana. Ela vivia, naquele ano de 1998, um momento de transição, em busca de um novo objeto de pesquisa.
Essa “paixão à primeira vista”, como gosta de definir Tatiana, vem percorrendo, ao longo de três décadas, um caminho de persistência e de inovação, revelando-se uma terapia revolucionária no tratamento de traumas que provocam paraplegia e tetraplegia. Após testes em ratos, cachorros e seres humanos, com resultados animadores, e uma parceria consolidada com a iniciativa privada, na forma de um contrato pioneiro da UFRJ com o laboratório Cristália, a pesquisadora espera a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ingressar nas três fases clínicas finais, quando uma droga experimental se transforma em medicamento.
Ao ser injetada na medula espinhal, a polilaminina, substância produzida em laboratório a partir da proteína original retirada da placenta humana, tem o potencial de reativar o axônio, prolongamento do neurônio que faz a “ponte” para transportar os impulsos elétricos de uma célula para outra. O resultado é fantástico: a recuperação dos movimentos em pacientes antes condenados à cadeira de rodas.
“Eu estava à procura de uma proteína. Então essa descoberta entre aspas da laminina, porque era uma coisa que já existia, esse encontro ao abrir o freezer marca o início da história”, recorda Tatiana. Dois anos depois, em 2000, veio uma descoberta de fato: ao colocar a proteína em pH ácido, a pesquisadora percebeu que ela “polimerizava”. Nascia a polilaminina.

“A laminina, dentro do organismo, é como se fosse um colar de pérolas. Quando você tira do corpo, arrebenta. Tem que formar o colar de novo para funcionar”, compara Tatiana, explicando o processo de polimerização. “Já era conhecida a capacidade da laminina de fazer o axônio crescer, mas isso acontecia, in vitro, com axônio jovem, embrionário. Nós conseguimos fazer o neurônio adulto ter os axônios recuperados.”
A invenção da polilaminina abriu horizontes. A pesquisa com células cultivadas em laboratório precisava evoluir. “O passo seguinte era testar no animal, tentar mostrar que a polilaminina poderia regenerar uma lesão de medula”, descreve Tatiana.
Levanta-te e anda
Esse “milagre” da ciência viria quase 20 anos depois, transformando a vida de Bruno Drummond. Em abril de 2018, o jovem paulista, então com 23 anos, viajava de carro, o pai ao volante, para festejar o aniversário da avó em Teresópolis (RJ). A batida num poste, seguida de capotamento, provocou a fratura de duas vértebras de Bruno – C6 e T8 –, que dormia deitado no banco de trás, sem cinto de segurança.
“Só me lembro de acordar depois da cirurgia, tentando me mexer. Vi meu pai, minha mãe, os médicos, senti que algo muito grave tinha acontecido. Estava sem movimentos nas pernas e nos braços, só conseguia mexer o ombro”, relembra Bruno. “A previsão era que eu ficaria numa cadeira de rodas pelo resto da vida.”
Tatiana tinha acabado de obter a aprovação de protocolo de pesquisa junto à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para iniciar testes com pacientes humanos. Uma verba de R$ 100 mil da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), agência do governo estadual, viabilizou, a duras penas, a aplicação da polilaminina em oito pacientes recém-lesionados (de 24 horas a três dias do acidente) de hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS): Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, e Azevedo Lima, em Niterói.
Bruno estava internado no Copa Star, em Copacabana, mas contou com uma soma de fatores para ter acesso à terapia. Um integrante da equipe de cirurgia havia ouvido falar da pesquisa da professora da UFRJ. Um tio médico, diretor de hospital, e uma tia neurocirurgiã avaliaram a situação. “Meu tio tomou a decisão de aplicar a polilaminina durante a operação. A possibilidade de eu ficar tetraplégico era grande. Ele assumiu o risco”, conta Bruno.
Em três semanas, surgiram os primeiros sinais de movimento nos pés. “Se o estímulo nervoso saiu do cérebro e chegou à outra extremidade, significava que havia esperança. Foi a virada de chave. Comecei a acreditar, a mudar a minha mente”, conta Bruno. No fim de 2018, de forma assombrosa, ele já caminhava sem a ajuda de ninguém.
Dupla dinâmica
É preciso voltar ao ano de 2005 para compreender a evolução da história da polilaminina. Duas alunas da professora Tatiana tiveram papel fundamental na transição da pesquisa in vitro para in vivo. Madalena Barroso viajou para Miami (EUA) com o objetivo de se especializar em testes com ratos no instituto criado por Christopher Reeve, ator que personificou o Super-Homem e ficou tetraplégico após cair do cavalo em uma competição de hipismo. À mesma época, Karla Menezes trocou Uberlândia (MG), onde se formara em enfermagem e biologia, pelo Rio de Janeiro, como aluna de mestrado da UFRJ.

Madalena foi treinada no Miami Project to Cure Paralysis – Projeto para Curar a Paralisia –, parceria do ator com a Universidade de Miami, e voltou ao Rio para transmitir a expertise adquirida: como “fazer” a lesão, com a compressão da medula do rato, e os testes funcionais para acompanhar a recuperação do animal.
Karla embarcou num sonho motivado por uma forte questão pessoal: “Quando eu tinha 23 anos, estava no fim do curso de biologia na Universidade Federal de Uberlândia (MG), que fiz junto com enfermagem. Seis meses antes de me formar, sofri um acidente de carro gravíssimo. Fraturei as vértebras L3, L4 e L5. Tive hemorragia interna, fiquei com as pernas formigando. Houve o risco de ficar paraplégica. O médico, quando viu meu raio-X, comentou: ‘Menina, você tem uma sorte…’”
Com a sensação de “quase morte” e grata pela recuperação, Karla partiu em busca de um ofício em que pudesse ajudar outras pessoas a enfrentar casos de tetraplegia e paraplegia. “Decidi que ia trabalhar com lesão medular. Tinha visto um edital da UFRJ de pesquisa de célula-tronco. Assim que voltei a andar e pude viajar, vim para o Rio. Conversei com o professor Radovan Borojevic. Ele me deu uma aula sobre células-tronco, mas me indicou uma professora que estava pesquisando uma terapia alternativa.”
O encontro com Tatiana se deu em agosto de 2005; a prova de mestrado, em dezembro. Estava feita a transição da Universidade Federal de Uberlândia, após um curso de graduação em que Karla lidava com exame genético, para o Centro de Ciências da Saúde (CCS), no Fundão, com um novo mundo a desbravar.
Testes com cachorros
Em 2010, os experimentos em laboratório já demonstravam que a polilaminina regenerava os axônios no rato depois de uma lesão. A prova de conceito estava consumada. “Essa passagem do in vitro para o in vivo é um desafio. In vitro quase tudo funciona, mas in vivo você tem muitas outras coisas que importam, como, por exemplo, se a proteína vai ficar lá ou se vai ser eliminada, como injetar, se vai chegar ao lugar onde você quer que ela chegue, se o processo de cicatrização vai atrapalhar”, enumera Tatiana.
Antes de chegar ao ser humano, era necessário testar com animais de médio porte. O primeiro teste com cães foi realizado em 2016. O objetivo maior era dar a segurança de que a polilaminina não teria efeito negativo em animais de maior porte. “O laboratório virou um centro cirúrgico de cachorros. Os pets tinham lesões crônicas. De 11 cachorros, quatro melhoraram, mas não havia a certeza de que era efeito direto da droga, já que foram feitas descompressões nas cirurgias. O objetivo era ver se a droga era segura”, esclarece a pesquisadora.
Uma nova fase com cachorros foi realizada em maio de 2023: “Esse estudo mais recente já foi para avaliar se a droga tinha efeito na reversão da lesão. Vimos que casos crônicos também são passíveis de recuperação”, comemora Tatiana. “Claro que hoje a terapia interessa mais para quem está na cadeira de rodas. O estudo com os cães nos mostrou que a polilaminina também age nas lesões crônicas.”
Na pesquisa com cães, foi utilizada uma segunda droga – GDNF, também uma proteína natural – para auxiliar a polilaminina na ação de regeneração. “O Cristália já está se preparando para produzir o GDNF em laboratório. É uma proteína menor, que pode ser produzida artificialmente, num processo que chamamos de expressão heteróloga”, revela Tatiana.
Contrato recorde
A parceria da UFRJ com o Cristália, laboratório fundado no início dos anos 1970 em Itapira, interior de São Paulo, representa mais um marco na linha do tempo da pesquisa da polilaminina. Em 2021, após dois anos de negociação com a Inova UFRJ, agência de fomento à pesquisa da universidade, foi assinado contrato no valor inicial de R$ 3 milhões para transferência de tecnologia.
“Quando assumi a direção da Inova, o processo estava tramitando na Procuradoria. Bati o olho naquela tecnologia e percebi que seria uma decisão estratégica, o nosso carro-chefe, um divisor de águas no relacionamento da academia com a iniciativa privada”, define Kelyane Silva, professora da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC) da UFRJ, que comandou a Inova entre 2021 e 2023.
Ela ressalta também o trabalho de construção de um arcabouço jurídico e de documentação, “um aprendizado institucional”, com a participação da Agência UFRJ de Inovação – antecessora da Inova – e da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), responsável pela distribuição dos recursos captados na iniciativa privada.
O contrato com o Cristália inclui transferência de tecnologia e de know-how, com o pagamento de royalties quando o medicamento chegar ao mercado. “Firmamos o maior acordo de royalties da história da UFRJ, possibilitando que uma pesquisa de alta relevância seja viabilizada”, avalia Kelyane. Segundo ela, no atual processo de transferência de tecnologia no Brasil, só 5% do que é produzido na universidade chega às empresas. “Temos um mundo na universidade que não atinge a sociedade em geral.”
Esse diálogo entre meio acadêmico e iniciativa privada é defendido com ênfase pelo vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Cristália, Rogério Almeida: “Temos uma dificuldade hoje de alinhamento entre a indústria e a academia. Sem uma aproximação com a pesquisa de base, que é feita na universidade, a inovação disruptiva no Brasil fica prejudicada”.
“Para a indústria não é viável o investimento em pesquisa de base”, argumenta Almeida. “É necessário um volume entre 5 mil e 10 mil pesquisas para virar um medicamento. Os projetos de iniciação científica, o trabalho de mestrandos e doutorandos, as startups, tudo isso evolui para um funil que a indústria faz.”
Na visão do executivo, há três grandes entes no sistema de pesquisa que precisam conversar bem: “São partes do processo que devem dialogar em todos os momentos: a universidade, a indústria, que é o meio, e o órgão regulador lá na frente. Permeando tudo, as agências de fomento. Se não houver um alinhamento, uma conversa franca, sem desconfianças, o sistema não funciona”.
Aprovação da Anvisa
O estado da arte da polilaminina aponta para um dos vértices do triângulo. Ao realizarem uma entrevista coletiva em 9 de setembro, em São Paulo, Tatiana Sampaio, Rogério Almeida e o médico Ogari Pacheco, fundador e presidente do conselho do Cristália, tornaram pública a expectativa pela aprovação da Anvisa para o início das três fases finais do Estudo Clínico, já com a droga produzida no laboratório paulista. Essa conversa começou em 2023.
“A Anvisa exige uma série de questões de segurança, o que está corretíssimo. Como a laminina é extraída da placenta, querem a garantia de que não vai prejudicar o paciente. É claro que fazemos todos os testes, antes, durante e depois”, detalha Tatiana.
A sinalização positiva veio no último dia 23 de outubro. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, postou na rede social X (ex-Twitter): “A polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da UFRJ sob a liderança da professora Tatiana Sampaio, é esperança na recuperação de lesões medulares e pode chegar mais rápido ao SUS. O Ministério da Saúde e a Anvisa estabeleceram prioridade absoluta para acompanhar estudos de avaliação da sua segurança e eficácia e, com isso, acelerar a chance de acesso à população”.
Se houver a aprovação da Anvisa ainda este ano, possivelmente em 2028, após as três fases derradeiras do Estudo Clínico, será concluído o processo iniciado em 1998, quando Tatiana abriu o freezer de seu laboratório e “descobriu” a laminina. O registro do medicamento, para comercialização e utilização no SUS, poderá enfim ocorrer. E a ciência terá aberto um novo caminho.
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