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O poder da recriação
O professor Sérgio Azevedo apresenta o esqueleto do Maxakalisaurus topai, um dos dinossauros mais conhecidos da paleontologia brasileira (Foto: Luiz Costa)

O poder da recriação

No Lapid, do Museu Nacional, fósseis, múmias, artefatos arqueológicos e coleções atingidas pelo incêndio de 2018 ganham versões digitais que ajudam a estudar e a reconstruir parte da história da instituição

Eugênia Lopes

Numa das mesas do Laboratório de Processamento de Imagem Digital (Lapid), um gato egípcio repousava imóvel numa manhã de junho. Tinha o tamanho de um gato doméstico comum, as orelhas pontudas e o corpo cuidadosamente envolto em faixas. Dias antes, aquele modelo havia sido enviado para uma impressora 3D do laboratório.

Pelos computadores, os cientistas definem o que será recriado, como o dinossauro que aparece na tela (Foto: Luiz Costa)

Agora, depois de cinco dias de impressão, o paleontólogo Orlando Grillo trabalhava nos retoques finais da peça. Corrigia imperfeições, recriava texturas e retocava a pintura que daria à réplica a aparência da múmia original, que um dia integrou o acervo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O gato é apenas a etapa mais visível de um processo que começou anos antes, com exames de tomografia computadorizada, modelagem digital e dezenas de horas de processamento de imagens.

Arqueólogos costumam escavar o passado com pincéis, espátulas e muita paciência. No Lapid, vinculado ao Museu Nacional, o trabalho começa de outro jeito: com scanners, tomógrafos, computadores e impressoras tridimensionais. Ali não se desenterra o que estava escondido; reconstrói-se o que já existiu.

Foi graças a esse trabalho que centenas de peças do acervo do Museu Nacional, destruídas ou gravemente atingidas pelo incêndio de setembro de 2018, puderam ser preservadas em formato digital e, em muitos casos, reproduzidas fisicamente. Parte desse esforço já pode ser visto pelo público nas exposições “Bastidores da ciência” e “Rescaldo das memórias”, inauguradas em meados de junho no Paço de São Cristóvão.

Entre os objetos exibidos estão reproduções feitas no laboratório, resultado de um trabalho que combina pesquisa científica, modelagem digital e impressão tridimensional.

Espaço de muitas eras

O Lapid talvez seja um dos poucos laboratórios brasileiros onde fósseis de dinossauros, múmias egípcias, meteoritos, baleias, artefatos arqueológicos e obras de arte compartilham o mesmo espaço. Não porque pertençam à mesma área do conhecimento, mas porque todos podem ser convertidos em imagens tridimensionais.

Na manhã da visita da Minerva, o laboratório reunia parte dessa diversidade. No alto de um armário repousava o esqueleto do Maxakalisaurus topai, um dos dinossauros mais conhecidos da paleontologia brasileira. Em outra bancada, uma vasilha de cerâmica da Coleção Balbino de Freitas recebia os últimos retoques antes de ser recolhida pelas arqueólogas Angela Rabello e Mariana Duarte, da curadoria de Arqueologia do Museu Nacional. Retirada dos escombros do Museu Nacional, a peça foi restaurada para as comemorações dos 208 anos da instituição.

Próximo dali e perto da múmia do gato, uma libélula impressa em 3D aguardava transporte para a exposição “Rescaldo das memórias”, inspirada na obra do artista plástico Vik Muniz.

No centro dessa operação está o professor do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional, Sergio Alex Kugland de Azevedo. Docente da UFRJ há 37 anos, ele coordena o Lapid desde sua criação, em 2003. O laboratório nasceu de um projeto aparentemente simples: digitalizar obras raras da biblioteca do Museu Nacional.

A ideia era preservar documentos e ampliar o acesso de pesquisadores ao acervo. Logo ficou claro que a mesma lógica poderia ser aplicada a praticamente qualquer objeto. Primeiro vieram os fósseis. Depois as múmias egípcias. Em seguida, meteoritos, peças arqueológicas, coleções zoológicas e até pesquisas médicas.

Nascido na vanguarda

Quando o laboratório começou a funcionar, a impressão 3D ainda era uma tecnologia pouco conhecida fora de ambientes industriais e centros de pesquisa especializados. As impressoras eram lentas, os equipamentos custavam caro e a digitalização tridimensional estava longe de ser uma ferramenta cotidiana.

O avanço aconteceu aos poucos. Uma das tecnologias incorporadas pelo grupo foi a tomografia computadorizada. Hoje amplamente utilizada em pesquisas com fósseis e múmias, ela permitiu que os pesquisadores observassem estruturas internas sem danificar as peças. Foi assim que o laboratório passou a examinar o interior de crânios fossilizados, analisar esqueletos preservados dentro de múmias e produzir modelos tridimensionais altamente detalhados.

Para isso, muitas vezes era preciso improvisar. “A gente passou algumas noites esperando terminar a fila dos pacientes para colocar fósseis de dinossauro dentro do tomógrafo do Hospital Universitário”, lembra Sergio Azevedo. O equipamento era exatamente o mesmo utilizado para exames médicos. Mudava apenas o paciente.

O gato egípcio que estava sobre a mesa naquela manhã é resultado desse processo. A tomografia utilizada para gerar o modelo não foi feita com o objetivo de produzir uma réplica. O exame fazia parte de uma pesquisa que buscava entender o que existia no interior da múmia. Anos depois, os mesmos dados permitiram reconstruir a peça em três dimensões. Em outra sala do laboratório, uma réplica do esqueleto encontrado dentro do animal ajuda a ilustrar o resultado da investigação.

A múmia do gato egípcio é uma das peças mais impressionantes do acervo reproduzido (Foto: Luiz Costa)

Ao longo de mais de duas décadas, o Lapid ampliou suas atividades e estabeleceu parcerias com instituições como o Instituto Nacional de Tecnologia (INT), a PUC-Rio, o laboratório Dasa e diferentes grupos de pesquisa da área médica. O que começou com livros e fósseis passou a atender praticamente todos os setores do Museu Nacional.

À prova de fogo

Então veio o incêndio. Na noite de 2 de setembro de 2018, o fogo consumiu grande parte do Palácio de São Cristóvão e atingiu também o laboratório. Equipamentos foram destruídos. Computadores desapareceram. Impressoras viraram sucata. As instalações deixaram de existir. Mas boa parte dos arquivos digitais permaneceu. “O trabalho não se perde, porque como o nome do laboratório diz, ele é digital”, resume Sergio Azevedo.

A frase ajuda a explicar por que o Lapid passou a desempenhar um papel importante na reconstrução do Museu Nacional. Modelos produzidos antes do incêndio serviram de referência para pesquisas, restaurações e reproduções de peças atingidas pelas chamas. Outros foram criados posteriormente a partir de objetos recuperados durante o resgate do acervo. “Se a gente quisesse reproduzir todo o acervo do Museu Nacional, levaria décadas”, explica o professor.

Diretamente dos destroços

Em alguns casos, as reproduções incorporaram elementos do próprio incêndio. Em parceria com pesquisadores da PUC-Rio, o laboratório participou da produção de modelos confeccionados com cinzas recolhidas dos escombros do museu. Entre eles estavam versões do crânio de Luzia e do escaravelho pertencente à sacerdotisa egípcia Sha-Amun-em-su.

Atualmente, o Lapid funciona em novas instalações no campus de pesquisa do Museu Nacional, na Rua Bartolomeu de Gusmão, em São Cristovão. O espaço reúne impressoras 3D, scanners, computadores de alta capacidade e equipamentos de captura digital utilizados em diferentes projetos.

Réplica de uma peça famosa do Museu Nacional: o crânio de Luzia (Foto: Luiz Costa)

Parte do trabalho de finalização das peças é feito manualmente por Orlando Grillo e pelo designer Gabriel Cardoso, ambos servidores da UFRJ. A tecnologia produz a base. O acabamento continua dependendo da experiência de quem conhece os objetos. Antes do incêndio, o Museu Nacional era feito de salas, vitrines e coleções. Depois dele, passou a existir também em arquivos digitais, tomografias, nuvens de pontos e modelos tridimensionais. Criado para digitalizar livros raros, o Lapid acabou se transformando em um dos principais centros do país de documentação tridimensional aplicada ao patrimônio científico e cultural.

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