Maria Clara Patricio
A aproximadamente 200km da capital fluminense, um campus da UFRJ se consolida como referência em ensino, pesquisa e extensão. Quem olha o complexo atual, espalhado em quatro polos no município de Macaé, não imagina que tudo começou com um professor e um acampamento. O ano era 1983, quando Francisco Esteves, mais conhecido como Chico, uniu forças e dedicação junto a alunos para montar barracas e estudar a ecologia das lagoas costeiras.
Com os estudos avançando a cada dia, o acampamento se expandiu e as barracas não davam mais conta: era necessário criar uma estrutura fixa que pudesse abrigar pesquisadores e equipamentos. No fim da década de 1980, o projeto ganhou fôlego institucional e passou a contar com parcerias que viabilizariam a consolidação.
Em 31 de maio de 1994, foi oficialmente criado o Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé, o Nupem, fruto da união da academia com a comunidade local, que ajudou a subir as construções. “Fomos nós que escolhemos o lugar. Passamos um fim de semana acampados aqui: eu fazia a massa, enquanto outro carregava tijolo”, lembra Chico.
Em março de 2006, a unidade deu mais um passo decisivo, com a inauguração da sede construída pela Prefeitura de Macaé e equipada com laboratórios, salas de aula e infraestrutura de pesquisa, além da institucionalização como unidade vinculada ao Centro de Ciências da Saúde da UFRJ. Atualmente, o Nupem se configura como um instituto multidisciplinar, reunindo cursos de graduação e pós-graduação em diversas áreas de conhecimento.

Embora não esteja mais à frente da direção, o professor Chico Esteves segue ativo como docente e pesquisador. No Laboratório de Limnologia, alunos destacam não apenas o conhecimento transmitido, mas o incentivo ao crescimento acadêmico e profissional.
Letícia Jeronymo, aluna de cursos de graduação em ciências biológicas do Nupem, começou a frequentar a bancada de pesquisa logo no primeiro período: “O trabalho no laboratório e a orientação do professor Francisco Esteves foram fundamentais para que eu pudesse crescer como profissional dentro da biologia, não só aprendendo com o que ele ensina, mas também pelas oportunidades que nos proporciona com os projetos”.
Covid-19 e sequenciamento de DNA
Sucessor de Francisco Esteves na direção do Nupem, Rodrigo Nunes esteve à frente do instituto entre 2014 e 2022. A atuação durante a pandemia de Covid-19 ganhou destaque, quando a unidade se mobilizou no enfrentamento da doença em Macaé. A partir de uma articulação entre universidade, poder público e instituições parceiras, o Nupem passou a realizar testes de RT-PCR, considerados padrão ouro para o diagnóstico da doença, no Laboratório de Microbiologia e Bioprocessos.
Outro ponto alto é um projeto desenvolvido em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), iniciado há cerca de dois anos, que aprofunda os estudos sobre as lagoas do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba.
A pesquisa busca compreender os microrganismos presentes nesses ambientes a partir de técnicas avançadas de sequenciamento de DNA, com o uso da tecnologia Oxford Nanopore – mede alterações na corrente elétrica à medida que moléculas passam por poros proteicos (nanoporos) em uma membrana.
“Cada uma das lagoas é um ecossistema totalmente diferente, com organismos e características próprias. Agora a gente está olhando para dentro delas, identificando as bactérias e o que existe ali com a utilização das tecnologias mais modernas de genômica”, detalha o professor Rodrigo.
Museu de biodiversidade
No mesmo terreno que abriga o Nupem, outro espaço vem se consolidando como ponto de encontro entre ciência e sociedade, numa conexão direta da universidade com crianças e adolescentes: o Museu Norte Fluminense de Biodiversidade, conhecido também como Biomuseu, inaugurado em março de 2025.

Voltado principalmente para alunos dos ensinos fundamental e médio, o museu reúne exposições que vão desde a formação do planeta até a diversidade dos ecossistemas locais. O espaço conta com fósseis, minerais, exemplares de animais taxidermizados, coleções científicas e produções desenvolvidas pelos próprios estudantes.
“Nossa ideia é representar a biodiversidade do Norte Fluminense e, ao mesmo tempo, oferecer ao público a oportunidade de conhecer a história da vida na Terra”, explica o professor Pablo Rodrigues Gonçalves, responsável pelas coleções biológicas.
Beterraba e fábrica de moléculas
A 10 minutos de carro do Nupem, o Polo Ajuda concentra uma parte da infraestrutura científica do campus, reunindo laboratórios utilizados pelos cursos de Farmácia, Química e Nutrição. Incorporado à UFRJ a partir da expansão iniciada em 2009, o espaço passou a abrigar atividades voltadas sobretudo à pesquisa, sem se afastar da formação dos estudantes e da relação com o município.

“A UFRJ Macaé tem como característica a forte presença de atividades extensionistas, de grande relevância para a região. A extensão, aqui, é reconhecidamente um dos principais destaques”, avalia o professor Thiago Alvares, do curso de Nutrição.
Entre as pesquisas desenvolvidas no Polo Ajuda, estudos sobre compostos bioativos presentes nos alimentos mapeiam os efeitos no organismo, com foco na saúde cardiovascular. A beterraba é um dos pontos principais da pesquisa. “A gente estuda e avalia o comportamento dos componentes na fisiologia. No caso da beterraba, ela tem um nutriente importante para a modulação da saúde cardiovascular”, explica Alvares.
Com o apoio de análises laboratoriais e testes fisiológicos, os pesquisadores buscam compreender de que formas a alimentação contribui para a prevenção de doenças e a promoção de uma rotina saudável.
Ainda no Polo Ajuda, os laboratórios do Instituto de Química produzem substâncias com potencial aplicação na área da saúde. Sob coordenação do professor Leandro Lara de Carvalho, os estudos envolvem a criação de moléculas para atuar, por exemplo, no combate a enfermidades parasitárias e ao câncer.
“A gente faz compostos orgânicos que podem vir a ser úteis contra doenças. É como se fosse uma fábrica de moléculas”, define o professor.

3 mil alunos
O Centro Multidisciplinar da UFRJ em Macaé reúne hoje uma estrutura avançada, com nove cursos de graduação e programas de pós-graduação. O espaço abriga uma comunidade acadêmica de 3.000 alunos e 480 docentes, distribuídos entre os cursos de Farmácia, Química (Bacharelado e Licenciatura), Medicina, Enfermagem, Nutrição e Engenharias (Mecânica, Civíl e Produção). A previsão para os próximos anos é a chegada dos cursos de Psicologia, Química Industrial e Engenharia de Dados.
Com o objetivo de ir além da sala de aula, o centro foi estruturado para promover a integração de diferentes áreas. “A sociedade hoje pede respostas para os problemas da vida de forma articulada, interdisciplinar e com olhares plurais”, explica o professor Irnak Marcelo Barbosa, decano do Centro Multidisciplinar. Segundo ele, essa característica se reflete diretamente na relação com o território. Cursos da área da saúde, por exemplo, têm o próprio SUS como principal campo de prática, inserindo os estudantes desde cedo na realidade da região.
Criado a partir da adesão da UFRJ ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), o campus de Macaé tem superado desafios importantes ao longo do processo de interiorização. “Os principais desafios tiveram três naturezas: a fixação dos docentes recém-concursados, a adequação dos currículos dos novos cursos e a infraestrutura, já que não havia laboratórios suficientes nem espaços adequados para pesquisa”, aponta Irnak.
Tijolos ecológicos
Dentro do Centro Multidisciplinar, um projeto que une inovação e sustentabilidade nasceu de um problema do dia a dia do campus: o aumento significativo de resíduos após a implantação do restaurante universitário. As embalagens de isopor passaram a gerar um alto volume de descarte, criando um cenário que motivou alunos e professores a buscar alternativas sustentáveis para esse material.

(Foto: Luiz Costa)
“Aumentou muito a quantidade de resíduos com as quentinhas, e tudo isso ia para o lixo. A ideia foi pensar em uma solução de economia circular, reinserir esse material no processo produtivo”, explica a estudante de engenharia mecânica Rayssa Brum.
A iniciativa, como lembra o professor Gustavo Guimarães, coordenador do projeto, surgiu a partir de um trabalho de conclusão de curso de uma aluna de engenharia civil, que buscava desenvolver uma solução aplicada ao próprio campus. “O laboratório já desenvolvia um projeto voltado à incorporação de resíduos em tijolos de solo-cimento, o que abriu caminho para a utilização de novos materiais”, explica. O grupo passou a olhar para o acúmulo de EPS (poliestireno expandido) e focou não apenas no descarte, mas na reutilização.
A partir disso, surgiu a proposta de incorporar o isopor à produção de tijolos ecológicos. O material é coletado, triturado manualmente e processado até se transformar em um composto granulado, que depois é misturado ao solo, cimento e água. Após a prensagem, os tijolos passam por um período de cura de cerca de 28 dias até atingirem resistência.
Laboratório vivo
O trabalho dialoga com conceitos de economia circular e com a ideia de um campus que funciona como laboratório vivo, onde problemas se transformam em objeto de pesquisa e inovação. “Essa abordagem reduz impactos ambientais associados ao descarte, promove o uso mais eficiente de recursos e cria oportunidades de formação prática e desenvolvimento tecnológico”, destaca Guimarães.
O projeto segue em evolução. Por enquanto, os tijolos são utilizados em pequenas obras internas, enquanto os estudos avançam para avaliar a resistência e a viabilidade em maior escala. “Não fizemos todo o estudo científico para saber exatamente a resistência do tijolo, então não podemos simplesmente fornecer. A ideia é completar essa etapa ao longo deste ano”, projeta a aluna de engenharia civil Maria Luiza Almeida.
Diretor-geral do Instituto Politécnico da UFRJ Macaé e professor de engenharia de produção, Thiago Gomes ressalta os conceitos de multidisciplinaridade e de impacto social que permeiam as pesquisas: “Nossos alunos são muito participativos, sempre envolvidos com a comunidade e com ideias funcionais, para transformar a vida das pessoas”.
Do acampamento às margens das lagoas a um campus multipolos, de tijolo em tijolo, integrando academia, comunidade e poder público, a UFRJ avança em Macaé, fornecendo importantes subsídios científicos para a construção de uma sociedade com mais equidade social e preservação ambiental. Ainda há muita história para ser contada.