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Visões da desigualdade
Elisa Pereira Reis: “Todos os grandes desafios da humanidade só podem ser tratados a partir de um conhecimento multidisciplinar, que deve ser incentivado dentro das universidades públicas e privadas” (Foto: Luiz Costa)

Visões da desigualdade

Cientista política da UFRJ investiga há décadas como as elites e a sociedade percebem pobreza e distribuição de renda

Ana Clara Prevedello

Com a habilidade de quem dedica décadas à pesquisa, a cientista política Elisa Pereira Reis, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCS/UFRJ, revisita uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da desigualdade social, em um diálogo permanente entre sociedade e universidade. Relembra entrevistas com empresários, políticos e burocratas, reflete sobre os desafios contemporâneos da ciência e fala sobre os caminhos que a levaram a se tornar uma das principais referências das ciências sociais no Brasil. Em 2000, recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico, uma das mais importantes distinções concedidas a pesquisadores no país.

Fundadora e uma das coordenadoras do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (Nied) da UFRJ, Elisa ajudou a consolidar um espaço dedicado à investigação de temas como educação, pobreza, percepções sobre riqueza e distribuição de renda. Além da produção acadêmica, uma das marcas do núcleo é a formação de pesquisadores, integrando estudantes de graduação e pós-graduação aos projetos desenvolvidos.

Segundo a cientista política, os alunos participam de todas as etapas do processo de pesquisa, da coleta e análise de dados à produção de artigos e apresentações em congressos. “Durante muito tempo, as ciências sociais tiveram uma vocação voltada majoritariamente para a formação de professores. Hoje, temos ex-alunos atuando em diferentes setores e organizações. É importante ampliar esse perfil profissional e, para responder a essa missão, é necessário que nossos alunos participem de reuniões de equipe, decisões metodológicas, jornadas de iniciação científica, congressos”, avalia.

Entre os primeiros projetos desenvolvidos pelo Nied está o estudo que acompanha a trajetória de Elisa até hoje: uma pesquisa dedicada à análise das percepções das elites sobre pobreza e desigualdade. Iniciada no Brasil, a investigação foi ampliada para África do Sul, Bangladesh, Filipinas e Haiti. O objetivo era compreender como grupos com maior poder econômico, político e burocrático interpretavam as causas da pobreza e os caminhos para enfrentá-la.

Segundo Elisa, as elites brasileiras e sul-africanas compartilhavam na década de 1990 uma visão economicista, na qual o crescimento econômico deveria preceder políticas redistributivas. A desigualdade não era vista como um problema imediato: acreditava-se que o próprio desenvolvimento econômico reduziria as diferenças sociais. Em Bangladesh, por outro lado, prevalecia uma interpretação cultural, que atribuía a persistência da pobreza aos padrões de consumo emulados pela classe média.

Mudança de percepção

Em 2013, ao revisitar parte da pesquisa no Brasil e na África do Sul, foram identificadas mudanças significativas entre essas duas elites nacionais. Enquanto os sul-africanos mantinham a percepção de que o crescimento deveria anteceder a redistribuição, parte da elite brasileira passou a enxergá-la como um possível motor para o próprio desenvolvimento econômico. “Muitas das pessoas entrevistadas acreditavam que redistribuir renda significava aumentar a demanda, estimular a produção e impulsionar a economia, o que mostra que as percepções não são imutáveis. Dependem de circunstâncias históricas e sociais”, pondera.

A constatação revela uma característica central não apenas na pesquisa, mas na trajetória de Elisa: o empenho em compreender sob que condições diferentes grupos sociais estão dispostos a apoiar políticas redistributivas, analisando o que molda as posições das elites diante da desigualdade. “Que tipo de interesse leva uma elite a concordar com a redistribuição, a pagar mais impostos, por exemplo? As pessoas agem motivadas por   interesses que podem ser materiais ou ideais. Tendemos a acreditar que só o interesse mercantil orienta nossas ações, mas motivação é tudo que nos dá prazer, que nos motiva por alguma razão, seja ela de natureza material ou ideal”, afirma.

Seguindo essa linha de pesquisa, o Nied ampliou o foco da análise para além das elites, buscando entender como esses temas são discutidos pela sociedade em geral. O Wealth Talks – “conversas sobre riqueza”, em tradução livre –, um dos principais projetos do núcleo, coordenado no Brasil pelo Professor Flávio Carvalhaes, investiga como pessoas comuns tratam os conceitos de riqueza e desigualdade no cotidiano.

“Queremos entender se há resistência ou disposição para apoiar medidas distributivas e como essas posições se manifestam em diferentes contextos sociais, tentando compreender, também, em que medida o próprio diálogo pode transformar opiniões”, explica. Os dados brasileiros integram uma iniciativa internacional realizada também em Botswana, África do Sul, Alemanha e Inglaterra.

Progresso social

A atuação de Elisa ultrapassa as fronteiras do Nied. Atualmente, participa do International Panel on Social Progress (IPSP), rede internacional que reúne cientistas sociais, formuladores de políticas públicas e representantes da sociedade civil para discutir caminhos voltados ao progresso social.

Em 2018, integrou o grupo responsável pela elaboração de três volumes publicados pela organização, com um balanço dos avanços e desafios das sociedades contemporâneas nas últimas décadas.

Paralelamente, participou da produção do livro “Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma Sociedade Melhor”, capitaneado pelo IPSP e publicado em diferentes idiomas. “O painel continua em atividade e reúne não apenas acadêmicos, mas também representantes da sociedade civil e de instituições públicas”, afirma.

Compromisso público

Para Elisa, a produção científica não deve ficar restrita à universidade. A atuação do Nied combina pesquisa acadêmica, assessoria técnica, diálogo com instituições públicas e colaboração com organizações da sociedade, em uma perspectiva que ela define como “parte do compromisso público da ciência”.

Ao refletir sobre os momentos mais marcantes de sua trajetória, a professora não identifica um período decisivo, mas sim o acúmulo de uma vida dedicada à pesquisa. Lembra com carinho do período em que realizou entrevistas de campo com representantes das elites, etapa que considera fundamental para sua formação.

“Como fui pioneira, era mais fácil. A elite era mais disponível, com muita receptividade para conversar”, revela. As entrevistas incluíram empresários, burocratas e lideranças políticas em diferentes regiões do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Ceará, para captar possíveis variações regionais entre elites.

Elisa reforça a centralidade da universidade pública na produção de conhecimento e na formação de pesquisadores: “Todos os grandes desafios da humanidade só podem ser tratados a partir de um conhecimento multidisciplinar, que deve ser incentivado dentro das universidades públicas e privadas. Como implementar políticas de mitigação da crise climática, por exemplo, se não compreendermos como a população responde às diretivas técnicas?”.

Para Elisa, a diversidade de ideias e conceitos que conversam entre si e se complementam aponta o caminho para o avanço social: “O diálogo transdisciplinar é um imperativo para o enfrentamento dos desafios existenciais que o mundo enfrenta”.

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