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Feitos por átomos e palavras
Registro de análise de águas-vivas invertidas para identificar os impactos da poluição no ambiente marinho e regular populações de plâncton (Foto: Luiz Costa)

Feitos por átomos e palavras

Laboratório de Estudos Ambientais Olaf Malm investiga a dinâmica de contaminantes no ambiente e seus efeitos sobre os seres vivos

João Vitor Prudente

Quem circula pelo Centro de Ciências da Saúde (CCS), na Cidade Universitária, encontra corredores movimentados e escuta maquinários e equipamentos que dão vida às pesquisas ali existentes. Um deles é o Laboratório de Estudos Ambientais Olaf Malm (LEA-OM), no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, que, ao longo de sete décadas, é movido por uma frase estampada na placa de vidro na entrada do espaço: “Somos feitos de átomos e palavras”.

Cunhada pelo professor, químico e pesquisador Eduardo Penna Franca (1927-2007), a frase remete à ciência e ao conhecimento, indicados pelos átomos, mas também humaniza a pesquisa e a aproxima do mundo real ao valorizar as palavras. “É uma frase que evidencia a visão que viemos do mesmo ambiente, seja físico, biológico ou químico. Nós fazemos parte de um todo e não estamos destacados do que está presente na natureza”, comenta Rodrigo Ornellas Meire, um dos professores que coordena as pesquisas desenvolvidas no LEA-OM.

Rodrigo Ornellas Meire colocando em prática técnicas de separação, identificação, purificação e quantificação de uma amostra (Foto: Luiz Costa)

A convite do professor Carlos Chagas Filho, o Laboratório de Radioisótopos foi criado em 1956 por Eduardo Penna Franca, com o objetivo de aplicar o uso de traçadores radioativos na pesquisa biológica. Essa linha de investigação possibilitou sua ampliação para o estudo dos efeitos da contaminação ambiental por partículas radioativas derivadas de testes de bombas atômicas, bem como para o estudo de áreas com elevada radioatividade natural e seus impactos sobre populações humanas.

“O laboratório tem um olhar integrado, buscando entender como os contaminantes ambientais podem causar impactos ecológicos e na saúde humana. Essa integração de fatores faz parte da nossa história”, comenta Cláudio Ernesto Taveira Parente, coordenador do laboratório e professor do Instituto de Biofísica. 

Com o tempo, novas preocupações surgiram a nível regional e global, e o foco se expandiu para outros tipos de contaminantes. Na década de 1980, quando o professor Wolfgang Christian Pfeiffer chefiou o então Laboratório de Radioisótopos, havia uma preocupação crescente com a saúde humana relacionada a metais pesados, como cádmio, chumbo e mercúrio.

Olaf Malm, chefe do LEA-OM por mais de três décadas, foi um dos responsáveis por consolidar o laboratório como referência nos estudos desses compostos químicos, em especial o mercúrio. Ele e uma ampla rede de colaboradores brasileiros e de diversos países aprofundaram o conhecimento sobre a contaminação ambiental por mercúrio na Amazônia, em um momento de grande preocupação com seu uso em garimpos.

Além da pesquisa, Olaf Malm foi uma referência na relação com os pesquisadores do laboratório. O professor Rodrigo Ornellas lembra dos primeiros momentos dele no antigo Laboratório de Radioisótopos, quando o professor Malm retornou à UFRJ após um período de pós-doutorado no exterior. “Ele chegou aqui no laboratório em uma ação normal. Tinha um monte de gente aqui, ele olhou para mim e fez questão de falar: ‘Você que é o Rodrigo. Prazer! Você é bem-vindo!’”. Esse encantamento inicial é mais um dos fatores que explicam a homenagem ao professor no atual nome do laboratório.

Com novas emergências que aumentam a preocupação com a qualidade de vida, como os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas, o laboratório também amplia suas linhas de pesquisas para compreender as dinâmicas do presente. Resíduos de medicamentos em corpos hídricos, qualidade do ar em lugares impactados por eventos extremos e a presença de agrotóxicos em unidades de conservação são algumas das pesquisas recentes que evidenciam como as atividades humanas e seus impactos se diversificam ao longo do tempo.

“É um olhar dos tempos atuais, voltado a questões que não faziam parte do horizonte de outras gerações., que, por sua vez, se dedicaram aos desafios mais relevantes de suas épocas. Podemos, com a mesma abordagem, seguir avançando as fronteiras do conhecimento em nossa área”, ressalta Cláudio Parente. Ele defende que as análises realizadas ali não estão isoladas de um contexto social.

As pesquisas também não se limitam às portas do laboratório. Em campo, os pesquisadores utilizam animais como indicadores ambientais. A bióloga Tuany Soares, por exemplo, investiga o acúmulo de contaminantes em aves marinhas para entender se há presença de metais pesados em concentrações acima do que é esperado que ocorram naturalmente na área em que vivem. “A gente quer saber como essas aves estão expostas a alguns contaminantes e se isso pode afetar a saúde delas”, explica. A partir de amostras como penas, é possível identificar a presença de substâncias químicas e mapear a contaminação de determinadas regiões.

Lugar de pesquisa e acolhimento

Centenas de graduandos, mestrandos e doutorandos já passaram pelo LEA-OM ao longo dessas sete décadas. Entre eles estão José Souto Neto e Daniela Dantas, amigos desde 2014, quando se conheceram na Paraíba – ele no mestrado, ela ainda na graduação – e que hoje atuam como pós-doutorandos no laboratório.

“Aqui sempre foi um ambiente muito acolhedor, desde que eu cheguei. É um lugar que funciona como uma família”, comenta Neto, que investiga os impactos dos contaminantes emergentes, como produtos de cuidado pessoal e fármacos, na vida marinha. “Além de monitorar a chegada deles no ambiente, investigo como seria o impacto na fauna e, por meio de organismos-modelo cultivados aqui no laboratório, é possível entender como esses contaminantes podem afetá-los”.

Daniela Dantas também orienta um grupo de estudantes de iniciação científica que atua na manutenção do cultivo de anfípodes do laboratório. Esses pequenos crustáceos são utilizados como organismos-modelo para avaliar o efeito de diversos contaminantes emergentes como, por exemplo, os fármacos para disfunção erétil. “Nós expomos esses animais a diferentes substâncias e observamos respostas, como crescimento e reprodução, para entender de que forma esses contaminantes que chegam ao ambiente marinho através do esgoto comprometem a saúde e o desenvolvimento dos organismos”.

Maria Isabel Peixoto acompanha uma das fases de crescimento dos anfípodes em ambiente refrigerado (Foto: Luiz Costa)

É com esses organismos-modelo que Maria Isabela Peixoto, graduanda em Ciências Biológicas da UFRJ, desenvolve sua pesquisa. Além de valorizar o próprio trabalho realizado, a estudante projeta seu futuro acadêmico: “Às vezes as pessoas acham que a gente só cuida dos bichinhos, mas a gente está por trás de uma coisa muito maior. Até porque tudo que está no meio ambiente volta para a gente”.

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